Respirar ar poluído pode ser tão nocivo quanto o cigarro na hora de desencadear o câncer de pulmão. É o que revela um estudo publicado nesta quarta-feira (2) na prestigiada revista científica Nature, trazendo à tona uma relação cada vez mais preocupante: o aumento de casos da doença entre pessoas que jamais acenderam um cigarro.
Há décadas, o tabagismo é apontado como o grande vilão desse tipo de tumor, mas cientistas alertam que ele não caminha sozinho. A pesquisa, conduzida por uma equipe internacional, analisou amostras de tumores de 871 pessoas que nunca fumaram, em 28 regiões distribuídas entre África, Ásia, Europa e América do Norte — locais com diferentes índices de poluição.
Usando tecnologia de sequenciamento genético de ponta, os pesquisadores encontraram assinaturas mutacionais — marcas no DNA que indicam agressões sofridas ao longo da vida. Ao cruzar essas informações com dados de partículas finas no ar, medidos tanto por satélites quanto por estações terrestres, a equipe conseguiu mapear o impacto real da poluição na saúde pulmonar.
O resultado é alarmante: quem vive em áreas mais poluídas apresenta muito mais mutações genéticas ligadas ao câncer de pulmão. Entre os dados mais surpreendentes está o aumento de quase quatro vezes em uma mutação típica de fumantes, além de um crescimento de 76% em outra alteração associada ao envelhecimento celular.
“Notamos que a poluição do ar não apenas eleva o número de mutações somáticas, como também carrega padrões muito parecidos com os provocados pelo cigarro”, explica Marcos Díaz-Gay, ex-pesquisador do laboratório de Alexandrov e atualmente no Centro Nacional de Pesquisa do Câncer, em Madri. Outro dado que reforça o alerta: quanto maior o nível de poluição, maior a carga de mutações encontradas. Além disso, os tumores mostraram telômeros — estruturas que protegem os cromossomos — mais curtos, sinal claro de envelhecimento celular precoce.
Curiosamente, o fumo passivo, muitas vezes apontado como vilão silencioso, mostrou impacto mutacional bem menor do que o da poluição. “Se há efeito mutagênico, ele é tão sutil que nossas ferramentas ainda não conseguem detectar”, disse Tongwu Zhang, coautor do estudo. Mesmo assim, o fumo passivo também provoca o encurtamento dos telômeros, acelerando o desgaste celular.
Agora, a equipe planeja ampliar a pesquisa para regiões da América Latina, Oriente Médio e outras áreas do continente africano. Além da poluição atmosférica, outros fatores estão na mira dos cientistas, como o uso de maconha e cigarros eletrônicos, principalmente entre jovens que nunca experimentaram tabaco convencional. Substâncias como radônio e amianto também estão no radar, assim como o aprimoramento de dados locais sobre qualidade do ar.
Com esses resultados, o alerta fica claro: respirar ar contaminado pode ser um risco silencioso, mas tão letal quanto o fumo.
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